[#65] Visitas proibidas: estivemos no sítio arqueológico mais importante do Brasil
Na região metropolitana de Belo Horizonte, ao lado do aeroporto de Confins, foram encontrados centenas de esqueletos humanos milenares.
“É claro que trabalhar com aquele crânio olhando para você é bacana, mas a escolha não é simplesmente pelo apelo estético”, disse Rodrigo Elias de Oliveira, bioantropólogo do Laboratório de Arqueologia, Antropologia Ambiental e Evolutiva da USP. Ele explicava como são escolhidos os pesquisadores que fazem a exumação de esqueletos humanos que têm entre oito e dez mil anos, um trabalho cuidadoso, demorado e que exige, nas palavras dele, muitas “horas de voo” do responsável.
Estávamos na Lapa do Santo, sítio arqueológico que fica numa comunidade de Matozinhos, região metropolitana de Belo Horizonte. Durante um dia inteiro, acompanhamos os trabalhos dos pesquisadores e vimos de perto quando o sepultamento de número 40 daquele sítio começou a se revelar com mais clareza. Um sepultamento duplo, algo pouco comum mesmo para uma região incomum.
Após frisar que testes precisariam ser feitos em laboratório, ele cravou: como tudo naquela área, aqueles esqueletos tinham pelo menos oito mil anos. De pé, a poucos metros dos restos de pessoas que viveram há milhares de anos, foi impossível não me emocionar.
A importância arqueológica dessa região mineira é conhecida desde o século 19, quando o pesquisador dinamarquês Peter Lund começou suas escavações na área. Ao longo de décadas, cerca de duas centenas de esqueletos antigos, datados em média em 10 mil anos, foram encontrados em várias cidades ao redor de Belo Horizonte. Entre eles está Luzia, um ícone da arqueologia no Brasil, que foi exumada na década de 1970 de um sítio próximo, a Lapa Vermelha 4.
Localizada dentro de uma propriedade particular, a Lapa do Santo só foi receber as primeiras escavações no século 21, comandadas pelo bioantropólogo Walter Neves. A equipe dele retirou dali 26 sepultamentos – como alguns sepultamentos têm mais de um indivíduo, esse número não corresponde ao de esqueletos, que é maior. Nos anos seguintes, começaram os trabalhados coordenados por André Strauss e Rodrigo Elias de Oliveira.
“Apesar da gente encontrar, não só no Brasil, mas em toda a América, sítios com datações mais antigas, eles não têm uma quantidade de esqueletos tão impressionante quanto a que existe nessa região. O grande trunfo dessa área é a quantidade de esqueletos humanos relativamente bem preservados. Para quem quer estudar o homem, aqui acaba sendo o principal lugar do país”.
Rodrigo Elias de Oliveira
“Logicamente, por quanto mais tempo se estuda um sítio, mais se sabe sobre ele”, explicou André Strauss, quando eu perguntei por que tantos esqueletos antigos são encontrados nessa parte de Minas Gerais.
Ele seguiu elencando motivos, que envolvem também o tipo de solo e as formações geológicas da área: “você só encontra esqueletos nas cavidades, nas grutas. Não é em qualquer caverna, claro, mas se os sítios são abertos, então não se preserva nada. Por outro lado, mais características são necessárias. (Nessa região) tinha bastante gente, as populações tinham rituais para os mortos, tudo isso ajuda”.
O dia a dia num sítio arqueológico
Por mais que essa região seja conhecida internacionalmente pela quantidade de esqueletos humanos milenares que é capaz de guardar, bastou entrarmos no sítio para a pergunta surgir: como os pesquisadores descobrem exatamente o local que deve ser escavado? “Na verdade tem um pouco de sorte nessa história”, diz Rodrigo. “E tem um pouco do que o Walter Neves gosta de chamar de feeling, de sensação, de sentimento, de você achar que em uma área é possível ou não encontrar algo”, completa ele.
Assim que uma área com potencial arqueológico é encontrada, os pesquisadores começam a sondar o terreno – é a tradagem, em que um recipiente é utilizado para furar o solo e trazer um pouco das várias camadas do que há ali.
O passo seguinte depende do que for encontrado. Cinzas de carvão podem ser restos de antigas fogueiras; ossos e materiais que podem ter sido usados pelo ser humano ligam de vez o alerta de escavação. É nesse ponto que é aberta uma quadra, que é exatamente o que o nome indica: uma área quadrada que começa a ser investigada.
Comum em beira de estradas, quando é usada por topógrafos que medem distâncias e ângulos, a estação total é uma ferramenta importante também em escavações arqueológicas. Usando pontos de referência, nas paredes das rochas ao redor, os pesquisadores conseguem mais tarde localizar virtualmente tudo que for necessário.
Rodrigo explica: “Quando eu voltar, com aqueles pontos fixados na parede do abrigo, que são relativamente imóveis, é só colocar a estação total em qualquer área que a gente está escavando. E no futuro eu consigo reorientá-la e determinar aqueles mesmos quadrados que eu fiz hoje. É fácil de reproduzir isso”.
Enquanto parte da equipe trabalha cuidando de todas as coordenadas de localização do que é escavado, outra fotografa e filma sempre que necessário. Imagens são feitas a cada etapa da escavação e uma impressora, um computador e outros equipamentos eletrônicos, alimentados por um gerador, transformam em escritório o sítio arqueológico.
Se há um sepultamento na quadra, fotos são tiradas a cada alteração na cena ou sempre que algo curioso foi notado – a posição de ossos, por exemplo.
“As fotos oficiais, obrigatórias, são as feitas antes de eu retirar qualquer osso do chão. Eu exponho uma quantidade grande de ossos, vou tirando terra em volta, até o momento em que eu não consigo tirar mais terra, porque vai desmontar; ou então eu não consigo ver o osso debaixo, porque tem um osso em cima. Aí a gente para, bate uma foto, que a gente chama de exposição. Só então eu vou retirar o osso da perna, o osso do braço, o crânio. A gente imprime as fotos, anota tudo e segue a escavação”.
Rodrigo Elias de Oliveira
Vestindo um macacão cinza e de meias, já que calçados são proibidos para quem entra nas quadras, Rodrigo trabalha pacientemente ao longo do dia, revelando, pouco a pouco, o sepultamento 40. “Sou dentista, né? Já estou acostumado a mexer com coisa pequena, apertada. E eu acho que, óbvio, toda essa lógica já vai te dar uma velocidade de trabalho. O material, os ossos, que são delicados”.
Rodrigo, dentista e bioantropólogo, conta que caiu na segunda ocupação meio que por acaso, ao visitar um sítio arqueológico no norte de Minas, numa viagem de férias. Depois de voltar para São Paulo, procurou o pesquisador Walter Neves – e desde então se divide entre o consultório e sepultamentos milenares.
Essa variedade de formações e origens é uma das marcas da escavação, que envolve pesquisadores de várias partes do país. Na quadra ao lado, um jovem arqueólogo trabalha calmamente com um pincel, numa área em que não há sepultamento. Dentro da gruta, a poucos metros dali, mais dois pesquisadores se revezam numa quadra.
Alguns metros abaixo da Lapa, outros cuidam de peneiras, que é uma segunda (e atenta) checagem de tudo que é escavado.
O material encontrado vai para São Paulo, onde os pesquisadores continuam um trabalho que está longe de acabar – vários mestrados e doutorados são feitos com base nos dados colhidos em campo, inclusive por pesquisadores que não participaram da escavação.
Mesmo para quem escavou os ossos, esse detalhamento de dados é fundamental para o desenvolvimento de pesquisas. André Strauss estudou os complexos rituais mortuários dos povos de Lagoa Santa, com base nas muitas informações colhidas nos sepultamentos – as posições de mãos e braços, por exemplo. Já Rodrigo Elias de Oliveira pesquisa a incidência de cáries nos esqueletos, considerada acima da média de povos caçadores-coletores, e relaciona isso com o consumo de frutos típicos do cerrado, como o pequi.
“Somos nós que estamos contando o que vimos lá, que agora não existe mais. Então, saber o que estava lá vai depender de todas as anotações, fotos, registros. Tudo que nós fizemos – e o que não fizemos está perdido para sempre. Acho que é nesse ponto que a gente se preocupa muito em ter um registro fiel, longo, chato”, explica Rodrigo.
Se a riqueza arqueológica da região facilita a localização sepultamentos, também dificulta a escavação, já que é comum que os pesquisadores “trombem” com outro sepultamento enquanto tentam retirar um já conhecido.
“Você começa a baixar a terra de um lado e, opa, bateu em outro sepultamento. Começa a baixar do outro e bate novamente. E assim acaba encontrando muitos sepultamentos numa mesma etapa”, diz Rodrigo. Enquanto retiravam o sepultamento 40, os pesquisadores já sabiam a localização de outros quatro, que aguardarão a volta da equipe, nos próximos anos.
A rotina no sítio começa às 7h30, quando o comboio de carros parte do centro da vila para a fazenda onde está a Lapa do Santo. Pouco depois das 8h a escavação começa, com uma rápida pausa para almoço num ponto isolado e distante do sítio, onde alimentos não são permitidos. Em geral, tudo é encerrado pouco antes de escurecer, mas houve dias em que os pesquisadores fizeram hora extra. E o ponto final é mesmo trabalhoso: é preciso tampar tudo com terra e deixar como era antes.
Pensando nos avanços de tecnologia e em pesquisas futuras, um sítio nunca é escavado totalmente. “A gente escava apenas uma parte e obrigatoriamente tem que deixar outra sem escavar. É para que, no futuro, com técnicas distintas, com perguntas distintas, pesquisadores possam voltar no sítio e ter uma nova escavação, novos dados, sem perder esse material para sempre”, diz Rodrigo.
Encerramos nossa conversa com uma pergunta, digamos, filosófica: qual a importância de um trabalho tão minucioso, mas que algumas pessoas afirmam não ter importância prática?
“Quando eu olho um esqueleto, não estou vendo apenas um monte de ossos, eu consigo pensar num indivíduo mesmo. E imaginar como era uma pessoa que há 10 mil anos estava andando por aquelas paisagens que a gente vê, que talvez fossem um pouco diferentes, talvez não. Preocupada com o que comer, com a doença dos filhos, com resolver um problema de um braço quebrado, de uma dor de dente… Quais foram as frutas que eles tinham disponíveis? Como eles caçavam e o que eles conseguiam comer? Por que uma pessoa com 35 anos morria? Essa é a minha curtição nesse trabalho. E é obvio que isso tem a ver com a nossa história, com o patrimônio desse país. (…) A gente está montando um desenho e tentando entender essas dores humanas que sempre estiveram caminhando conosco”.
Rodrigo Elias de Oliveira
Reportagem produzida em 2019, como parte do projeto Origens BR, e reeditada para a newsletter do 360meridianos. O Origens BR teve patrocínio da Seguros Promo.
Planeje sua viagem com o 360meridianos
Curte nosso conteúdo aqui, nas redes sociais e no blog? Você sabia que uma forma de contribuir com o 360meridianos é planejando sua viagem por meio dos nossos links?
Você não gasta nada a mais com isso, e a gente garante que vai continuar escrevendo os melhores guias, reportagens e crônicas de viagem! Essas são algumas das nossas empresas parceiras:
Reserve hotéis em todo o mundo com o Booking.com!
Fique protegido na sua viagem! Encontre o melhor custo-benefício entre as principais seguradoras de viagem do país com a Seguros Promo! O cupom NEWS360 é exclusivo para assinantes dessa newsletter e te dá 20% de desconto na apólice!
Reserve seu carro com a RentCars e garanta as melhores tarifas!
Encontre os melhores passeios, guias e atividades em todo o mundo com a Civitatis ou com a Get Your Guide.











