[#69] Os geoglifos do Acre e o passado da Amazônia
Alugamos um carro e percorremos centenas de quilômetros na Amazônia, em busca de sítios arqueológicos milenares.
O Edmar abriu um sorriso ao explicar como o nome do pai dele acabou batizando um sítio arqueológico. Estávamos falando sobre o geoglifo Jacó Sá, localizado a 40 quilômetros do centro de Rio Branco, no Acre, e que tem mais de mil anos.
Em 2018, por conta de sua importância histórica e cultural, o Jacó Sá se tornou o primeiro geoglifo brasileiro a ser tombado como Patrimônio Nacional. “Enquanto existir mundo, o nome do meu pai vai sair na televisão, vai aparecer a imagem dele sempre que falar do geoglifo. E eu fico feliz com isso, ele deixou o nome dele aqui”, diz Edmar.
Geoglifos são figuras feitas pelo ser humano no solo, em geral em regiões planas. Os mais famosos são os de Nasca, no Peru, mas a Amazônia brasileira também está cheia desses sítios arqueológicos. Só no Acre já foram registrados cerca de 800 – a maior concentração desse tipo de estrutura no Brasil. Mato Grosso, Rondônia e Amazonas somam juntos outra centena, enquanto a Bolívia, em especial na fronteira com o Brasil, já catalogou pelo menos 40 deles.
Eu e o fotógrafo Fellipe Abreu desembarcamos em Rio Branco e pegamos a estrada em direção ao interior do estado. Durante três dias, visitamos cerca de 20 geoglifos ao longo das BRs 357 e 317. Estávamos acompanhados pela Antonia Barbosa, arqueóloga do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) do Acre e que realiza pesquisas sobre o assunto há anos.
Na BR 317, que liga Rio Branco ao município de Boca do Acre, no Amazonas, dezenas de placas deixavam claro que estávamos num terreno repleto de passado. “O que nós sabemos é que os geoglifos foram feitos há mais de 1000 anos e que eles possuem diferentes formas geométricas. Foram construídos como lugares para rituais, locais cerimoniais. Os povos construtores não moravam dentro das estruturas, mas próximos delas”, explicou a Antonia.
Seguindo coordenadas geográficas, estacionamos o veículo. Ali, ao lado da rodovia, estava um geoglifo, mas foi preciso subir um drone para que conseguíssemos enxergar qualquer coisa além de elevações no terreno da fazenda ao lado.
“Os sítios localizados no Acre são mais geométricos: circulares, quadrados, com tamanhos e dimensões exatas. Já os que estão em outros lugares, em geral, não têm formas muito geométricas, embora sejam feitos da mesma maneira”, disse Antonia.
A arqueóloga também explicou que as semelhanças com os geoglifos de Nasca termina no nome. “Nesse caso, até a forma construtiva é diferente. Em Nasca são desenhos feitos no chão. E no Acre é escavado no chão. O tipo de solo e a finalidade também são outros”, diz ela.
A (re)descoberta dos geoglifos amazônicos
Durante décadas, pesquisadores acreditaram que a Amazônia seria um lugar inóspito para o desenvolvimento de grandes grupos humanos. A arqueóloga norte-americana Betty Meggers (1921-2012), uma das maiores especialistas no estudo de civilizações pré-colombianas na Amazônia, defendia que a selva, o tipo de solo e outros fatores impediam o surgimento de grandes civilizações.
“O predomínio do método de cultivo itinerante nas baixadas amazônicas representa, portanto, uma adaptação às necessidades especiais do solo e do clima. O fato de que essa é a única técnica agrícola que pode ser usada indefinidamente, sem danos permanentes para o solo, explica seu emprego em todo o mundo tropical. Mas conseguir manter a fertilidade do solo tem, em contrapartida, e é esse o preço pago, uma concentração demográfica relativamente baixa e a instabilidade de fixação dessa população.”
Betty Meggers – Amazônia, a Ilusão de um Paraíso
Meggers dizia que os povos amazônicos desenvolveram um complexo modo de vida, “impedindo que a população cresça ou se concentre a tal ponto que venha a pôr em perigo os recursos do meio ambiente local”.
Os lugares com maior quantidade de pessoas seriam ao longo dos rios, como deixavam claro os relatos dos primeiros conquistadores que desceram o Amazonas e seus afluentes, tipo o Tapajós.
Alguns anos mais tarde, outros estudos começaram a levantar a hipótese de que a Floresta Amazônica tenha, afinal de contas, servido sim de moradia para grandes grupos humanos. Um desses estudos foi feito pela também norte-americana Anna Roosevelt, que escavou sítios na Ilha do Marajó e em Monte Alegre, ambos no Pará.
Segundo a historiadora Maria Yedda Leite Linhares, a Amazônia “foi a área de maior concentração populacional da América no período imediatamente anterior ao contato com os conquistadores”.
Já o arqueólogo norte-americano Michael Heckenberger, que há anos comanda estudos no Xingu, calcula que a população amazônica antes da conquista tinha entre 4 e 10 milhões de pessoas. Hoje, a região tem cerca de 26 milhões de habitantes.
É neste contexto que os primeiros geoglifos do Acre foram descobertos, na década de 1970. Mas se passaram mais 20 anos até que as pesquisas realmente começassem, após o paleontólogo Alceu Ranzi visualizar, meio que por acaso, uma das estruturas – ele estava chegando em Rio Branco, num voo comercial. Quando retomados, boa parte dos estudos dos geoglifos foram feitos por outra mulher, a arqueóloga gaúcha Denise Schaan (1962 -2018).
Dos quase 800, apenas 20 foram escavados. “São sítios arqueológicos gigantescos, então não tem como a gente escavar todas as estruturas. Falta recurso, falta material humano”, diz Antonia. As ferramentas de visualização de imagens por satélite, que ficaram mais acessíveis nos anos 90, facilitaram o estudo desses sítios e levaram ao descobrimento de centenas deles.
Para os pesquisadores, a existência dessas enormes marcas no solo amazônico é mais uma prova de que a selva é densamente povoada há milênios.
“Os construtores dos geoglifos eram pessoas organizadas, provavelmente seminômades ou então sedentários, porque para construir uma estrutura dessas, sendo que na época obviamente não havia os equipamentos que nós temos hoje, não pode ter sido só um pequeno grupo – e também não foi num curto espaço de tempo que construíram esses sítios. Então tinha que ser um povo bastante organizado para fazer formas geométricas com as médias e formatos perfeitos, ainda mais levando em consideração o clima, a vegetação e o tipo solo”.
Antonia Barbosa, arqueóloga do IPHAN
Outra pesquisadora que tenta entender o que são os geoglifos é a Ivandra Rampanelli, com quem conversei por telefone. Ela destaca que os sítios começaram a ser construídos há dois mil anos e que mesmo séculos depois os povos locais seguiam fazendo marcas na terra – as construções foram interrompidas por volta de 1300 d.C, por motivos ainda desconhecidos.
Em média, cada geoglifo tem 100 m². A valeta de alguns alcança 5 metros e a largura chega a 14 – tudo isso pode variar de acordo com o estado de conservação dos sítios. “Muitos desses sítios arqueológicos foram encontrados em áreas hoje sem floresta, então acredita-se que nessa região existam muitos outros geoglifos”, diz a Ivandra.
“Um quadrado poderia ser agradecimento a alguma coisa cultural deles, a uma colheita boa, ou pela saúde de alguém. Seriam agradecimentos aos deuses, a religião deles. Existem estruturas de quadrado, quadrados dentro de círculos, um círculo dentro do outro, quadrado dentro do outro. E não há um padrão de localização ou uma distância comum entre eles, é aleatoriamente. Então a escolha do lugar onde se iria construir esses sítios arqueológicos pode ter sido algo cultural”.
Ivandra Rampanelli – Arqueóloga
Nos geoglifos já escavados foram encontrados materiais produzidos pelo ser humano, como urnas, potes e machados, embora em número reduzido.
“Pode ser que a pequena quantidade encontrada seja porque eles utilizavam muitos materiais orgânicos, que se decompõem rapidamente”, explica Ivandra. Alguns desses artefatos estão expostos no Palácio Rio Branco, sede do governo do Acre, e outros fazem parte do acervo de instituições como o Museu da Borracha.
A decisão do IPHAN de tombar o geoglifo Jacó Sá teve a ver também com a educação patrimonial: o tombamento colocou os geoglifos no noticiário nacional, tornando os sítios mais conhecidos, inclusive pelas comunidades onde eles existem.
Reportagem produzida em 2019, como parte do projeto Origens BR, e reeditada para a newsletter do 360meridianos. O Origens BR teve patrocínio da Seguros Promo.
Sobre o autor: Sou escritor e jornalista de viagem. Publiquei o romance “Dos que vão morrer, aos mortos”. Também participei das coletâneas Micros-Uai, Micros-Beagá, Crônicas da Quarentena e Encontros. Siga-me no Instagram: rafaelsettecamara.
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