Como é o segundo maior parque arqueológico do Brasil
Sem a fama da vizinha Serra da Capivara, o Vale do Catimbau, em Pernambuco, conta com mais de mais de 100 sítios arqueológicos
Imóvel, há seis mil anos um grupo dança no sertão pernambucano. Ao lado deles, um homem tenta capturar um animal, numa clara cena de caça. E tudo isso ocorre a centímetros de uma imagem mais íntima, sexo milenar gravado na rocha. Estávamos diante de uma parede repleta de pinturas rupestres no Vale do Catimbau, que fica a 288 quilômetros de Recife.
Transformado em Parque Nacional em 2002, o Vale do Catimbau preserva uma das últimas áreas intactas de caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro. Além de paisagens lindíssimas – das que impressionam até o mais acostumado dos viajantes – no Vale do Catimbau já foram catalogados mais de 100 sítios arqueológicos, números que fazem deste o segundo maior parque arqueológico do Brasil, atrás somente da Serra da Capivara, no Piauí.
Apesar da extensa lista de atrativos, que fizeram o Vale do Catimbau ser eleito uma das Sete Maravilhas de Pernambuco, a região é praticamente desconhecida pelo viajante brasileiro.
Os poucos turistas que hoje chegam vêm na esteira dos pesquisadores que há décadas lutam para estudar e entender a região – e, claro, para garantir a preservação das riquezas do Vale do Catimbau. “A beleza cênica da área é sem igual”, diz a arqueóloga Ana Nascimento, que frequenta o Catimbau há anos.
Ela sabe do que está falando, já que comandou as escavações num dos sítios arqueológicos mais importantes da área, o de Alcobaça, um paredão com 70 metros de extensão e repleto de pinturas rupestres. “Já na primeira sondagem apareceram esqueletos, restos de vegetais, cerâmicas…”
Com o material escavado, que hoje faz parte do acervo da UFPE, a pesquisadora propôs uma teoria para explicar a ocupação humana no Vale do Catimbau, que tem pelo menos 6500 anos. Essa é a idade do esqueleto mais antigo encontrado na área, exposto num museu de Buíque.
“Por ser uma região muito rica em fauna, flora, por ter muitos olhos d’água, que até hoje alimentam as cidades próximas em época de seca, e por estar na divisa entre o agreste e o sertão, eu levantei a hipótese de serem vários os grupos que ocuparam aquela área, em tempos distintos”.
Ana Nascimento – Professora e arqueóloga da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
As tradições agreste e nordeste e as pinturas rupestres
A melhor forma de entender essa teoria é observando as diferenças entre os vários desenhos rupestres encontrados no Catimbau, que são de duas tradições distintas:
A nordeste, que inclui pinturas com entre oito e dez mil anos e que foi caracterizada pela primeira vez na Serra da Capivara, por meio de pesquisadores como Niède Guidón; e a tradição agreste, que tem esse nome por ter sido caracterizada pela primeira vez num sítio no agreste pernambucano, não muito distante do Catimbau. As pinturas desta tradição são mais recentes, com cerca de dois mil anos.
Além da idade, há uma clara diferença no estilo dos desenhos. É o que explica Ana Nascimento, que diz que uma das principais características das pinturas da tradição nordeste é o movimento.
“É como se você estivesse vendo um desenho animado. E as figuras são pequenas, sempre representando cenas de caça, de sexo… Na tradição nordeste você sempre consegue identificar o que é antropomorfo (que representa o ser humano) e o que é zoomorfo” (que representa animais), explica a pesquisadora.
Já as pinturas da tradição agreste são estáticas e bem mais difíceis de serem compreendidas. “Na agreste você não consegue identificar movimento nas cenas. E quando é possível identificar figuras humanas, elas são grandes. Em Alcobaça tem uma figura humana de quase um metro. Já as figuras zoomórficas (que representam animais) são muito poucas, e sempre sem movimento”, completa ela.
No Catimbau há desenhos das duas tradições. O sítio de Alcobaça é totalmente dominado por pinturas da tradição agreste; já na Loca das Cinzas, o sítio descrito na abertura desta reportagem, predominam desenhos da tradição nordeste, que é bem mais antiga. Para a pesquisadora, essas diferenças ajudam a comprovar a teoria de que vários grupos distintos ocuparam a região, ao longo de milênios.
Pergunto se há ligação entre as pinturas deixadas na Serra da Capivara e as de tradição nordeste encontradas no Vale do Catimbau – a distância entre os dois parques nacionais é de quase 800 quilômetros. A pesquisadora cita um sítio do Catimbau, a Pedra da Concha, em que as pinturas têm elementos muito parecidos com as encontradas no Piauí. E arrisca: “Isso é paralelismo cultural? Eu acho difícil. Acho que pode ser de grupos que migraram de lá”.
Natureza e arqueologia no Vale do Catimbau
A melhor base para conhecer o Parque Nacional é a Vila do Catimbau, um distrito de Buíque, município de 50 mil habitantes. A população da vila é bem menor – pouco mais de duas mil pessoas moram ali.
Das ruas de Catimbau se vê o mundo em forma de caatinga. Foi esse cenário que encontramos numa manhã de quinta-feira, quando paramos em frente à casa do analista ambiental Francisco de Assis Araújo, um dos responsáveis pela implementação do Parque Nacional e chefe substituto da Unidade de Conservação.
“O objetivo da criação do parque foi a conservação da biodiversidade, a proteção do manancial, a educação ambiental e o turismo. E, claro, a proteção da história, que a gente tem nas pinturas rupestres”, explica ele, destacando que até hoje a caatinga é o bioma como menor número de unidades de conservação.
Como a maior parte da população vive na vila, e não está espalhada pelo parque, o problema real da falta de regularização fundiária acaba sendo a pecuária extensiva dentro da área da Unidade de Conservação. Além disso, falta investimento.
“Temos o desafio do controle, da fiscalização, do monitoramento. Não tem pessoal para isso, não tem contratação para vigilância, para guarda-parques. Isso facilita a entrada de pessoas”.
Francisco de Assis Araújo – ICMBio Parque do Catimbau
No primeiro dia de visita ao parque já ficou claro por que a pecuária é um desafio. Fazer turismo no Vale do Catimbau envolve percorrer trilhas, percursos que vão de dois a oito quilômetros, em média.
A única coisa que separa visitantes de sítios arqueológicos são cercas, algumas colocadas após exigência de pesquisadores. E que não estão ali para impedir a passagem de turistas, mas de bodes.
“Essa cerca foi colocada por conta dos bichos. Algumas partes do parque têm animais que costumam se abrigar nos locais onde têm pinturas rupestres, por serem lugares protegidos e quentinhos. Os animais se escoravam nas figuras e dormiam, então a cerca é uma forma de proteção”, explica Daniel Alves, guia turístico no Vale do Catimbau.
No começo da trilha que leva ao sítio de Alcobaça, encontramos com a Cida Andrade, que trabalhou por seis anos como vigilante do parque e agora é monitora – ela acompanha visitas ao sítio arqueológico, principalmente as feitas por escolas da região.
Ela explica que o local é conhecido há décadas pelos moradores, mas por outro motivo: “Ali sempre foi chiqueiro de bode”, diz ela, que conta que foi um fazendeiro, criador de animais, o responsável por tirar uma foto das pinturas rupestres e levá-la até os pesquisadores”.
“O pessoal chama (o sítio) de pedra pintada. Quando os turistas passam, os moradores mais velhos falam: ‘esse povo é doido! Vai ver o quê lá em cima? Um monte de pedra pintada?’”
A importância dos guias turísticos
Estacionamos o carro na praça central de Catimbau, em busca da pousada domiciliar em que tínhamos reserva. Em questão de minutos um representante da Associação dos Guias de Turismo do Catimbau veio se apresentar – a sede é na entrada da vila, o que facilita a abordagem aos visitantes.
Para a arqueóloga Ana Nascimento, a Associação é fundamental na preservação do parque, seja da natureza, seja dos sítios arqueológicos.
“Quando a gente começou a trabalhar na região, inseriu os jovens no nosso trabalho, para eles entenderem o que é a arqueologia, e também para ajudarem a gente, já que eles conhecem a região. Depois, montamos um grupo muito bom e fizemos cursos. Formamos os monitores e eles hoje são os guardiões de tudo. São grupos pequenos, mas que fazem um trabalho de educação patrimonial importante. E graças a isso a gente não tem sítios mais destruídos, porque eles são os guardiões dali”.
Ana Nascimento – Professora e arqueóloga da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
Daniel Alves, que há seis anos trabalha como guia no Vale do Catimbau, é uma dessas pessoas. Sentado em frente a um paredão repleto de pinturas rupestres e minutos depois de fazermos uma trilha que envolveu paisagens lindas, ele resumiu a importância do parque: “É um lugar especial, com várias inscrições rupestres de cinco, seis mil anos. Isso ajuda a contar a história de quem eram essas pessoas, de como se construiu o Pernambuco que hoje existe”.
Reportagem produzida em 2020, como parte do projeto Origens BR, e reeditada para a newsletter do 360meridianos. O Origens BR teve patrocínio da Seguros Promo.
Sobre o autor: Sou escritor e jornalista de viagem. Publiquei o romance “Dos que vão morrer, aos mortos”. Também participei das coletâneas Micros-Uai, Micros-Beagá, Crônicas da Quarentena e Encontros. Siga-me no Instagram: rafaelsettecamara.
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