[News#85] O Arroz Mais Esperado do Ano: uma páscoa em Portugal
“Antes usávamos esterco de vaca”, disse a Cinda. “E ficava bem mais gostoso” completou.
“Ôpa! Por que a menina quer saber disso tudo? Ano que vem, será ela a fazer o almoço da Páscoa?”
Mesmo muito desconfiados, aquela família portuguesa que vive numa aldeia no extremo norte do país estava bastante empolgada em responder às minhas curiosidades sobre suas tradições. Eu nunca havia dado atenção à Páscoa em Portugal – e acabei descobrindo que a data é quase tão importante quanto o Natal.
“Preparamos, todos os anos, o carneiro no forno, pato e arroz. Assim como no Natal, comemos bacalhau com batata e couves”. Todos os anos, toda Páscoa, sem exceção. Até as crianças, que tinham vindo de Lisboa, estavam na expectativa de comer o tal arroz.
Meus anfitriões eram o senhor Cândido e a dona Cinda, um casal que se juntou depois de idosos. São primos da minha amiga brasileira, a Bia, filha de pai português, que me convidou para o tradicional final de semana na aldeia.
Aldeia essa, me disseram, que já não é a mesma. Pelo caminho, a Bia me mostrava aquelas que eram as casas de algum familiar, as que estavam abandonadas, e as enormes, que ficavam fechadas o ano todo e eram de propriedade de quem foi fazer a vida em outro país.
Mas a quinta de Cinda e Cândido ainda tinha os ares de vida comum naquelas bandas, com seus os perus, galinhas e patos, as ovelhas, as vinhas e os pés de couuve. A água vem do poço, que vem de uma fonte mineral mais acima.
No sábado, ao meio dia e meia, pontualmente, já estava na mesa uma enorme panela com carne de vaca e de porco cozidas, couve, batatas e cenouras. E, claro, as garrafas de vinho, sem rótulo. O Miguel, filho da Cinda, foi rápido em me oferecer o vinho verde branco, que veio de Monção. Mas também me serviram o vinhão, vinho verde tinto, que nessa região não se bebe em taças e sim na malga – uma tigela branca sem alças.
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Miguel me contou que eles consomem todo o vinho que produzem – cerca de 1500 litros no ano. O grande lagar de pedra para amassar a uva fica logo atrás da espécie de barracão, também de pedra, onde está a cozinha com fogão de lenha e a grande mesa para as refeições.
Na hora da janta, pontualmente às 19h30, não estavam à mesa os restos do almoço, mas um tacho enorme com fígado refogado. E um prato menor, com uma carne branca com aspecto e textura um pouco diferentes. Se recusaram a me contar o que era até que eu provasse. Era testículo de carneiro!
Mas toda a comida no dia anterior foi só um prelúdio para a grande estrela do feriado.
Eles acordam cedo na manhã do domingo de Páscoa. Juntam a lenha e acendem o forno, muito quente, com labaredas saindo pela portinha. A cozinha de pedras torna-se uma sauna difícil de respirar. O carneiro já estava marinando desde a véspera, com vinho, alho e outros temperos.
Por volta de 11h, me chamaram para o grande evento. Na cozinha já estava abafada e ainda tivemos que fechar a porta para garantir que o calor se conservasse. Enquanto o Cândido tirava todas as brasas do forno, a dona Cinda colocava pacotes e mais pacotes de arroz numa vasilha de cerâmica. “Agora, coloco o caldo do pato que estava ali cozinhando”- me explicou ela. “E vou temperar o pato para depois ele ir ao forno”.
Eles realmente me explicaram passo a passo.
Primeiro, a tigela de mais de cinco quilos de arroz entra no forno. Acima dela, colocam a grelha e logo acima vieram os cortes do cordeiro temperado na véspera. Depois disso, veio o processo para fechar a portinha do forno. Quis saber o que era o balde com mistura estranha, que começava a ser espalhado na entrada: “É barro”.
O barro é colocado nos quatro cantos da abertura, onde depois vai uma porta de madeira, que é vedada com mais barro. Tudo para garantir que nenhum calor fuja de dentro das paredes do forno.
“Antes usávamos esterco de vaca”, disse a Cinda. “E ficava bem mais gostoso” completou.
“E por que pararam? Vigilância sanitária?” perguntei brincando.
“Não, é que não temos mais vacas para produzir esterco”.
O Cândido também me explicou que como aquele cordeiro era maior ficaria cerca de uma hora no forno. Então abririam o fogão, retirariam o arroz já pronto, e colocariam os patos com o carneiro para mais meia hora de cozimento até a hora do almoço.
Num barracão da casa vizinha, de familiares, montaram uma mesa enorme. Todos já estavam reunidos enquanto o pato era retalhado e o carneiro cortado. Havia comida ali para um batalhão, mas éramos 20 pessoas.
Sobrou mais da metade de tudo e olha que eu enchi meu prato três vezes, além de tomar muito mais vinho do que seria aconselhável.
Quando voltamos para casa, estranhei o portão fechado. “É que eles não querem abrir para o padre”, me explicou a Bia. Parte da tradição da Páscoa, no norte de Portugal, é a cerimônia do Beija-Cruz, também chamada de Compasso.
Minha amiga me disse que, antigamente, todas as casas abriam suas portas, com mesas fartas, para receber o padre, a cruz e sua comitiva. Depois, seguiam o padre e toda a família para a casa seguinte, formando uma procissão. Mas a tradição já não é a mesma. Muitas casas, como a que eu estava visitando, não abrem mais as portas. Um sinal da mudança dos tempos.
Felizmente, o cordeiro assado e o arroz mais aguardado do ano ainda seguem presentes.
Sobre Luíza Antunes
Sou jornalista e escritora de viagens, com mais de 800 artigos e reportagens publicados sobre o tema. Estudei sobre Turismo Sustentável num Mestrado em Inovação Social em Portugal. Atualmente moro na Inglaterra e também trabalho com SEO e Marketing Digital para pequenas empresas da indústria do turismo. Também já tive casa na Estados Unidos, Índia, Portugal e Alemanha, e já visitei mais de 50 países pelo mundo afora. Siga minhas viagens em @afluiza e @360meridianos no Instagram.
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