[News#86] Quando voar era um evento social (e a Varig servia caviar)
Quem hoje embarca de chinelo e discute se vale pagar mais pela mala despachada pode não acreditar, mas sim: voar já foi um luxo
Tem quem ainda hoje guarde o bilhete. Dobrado com cuidado, numa gaveta ou numa caixa de sapato, junto com o passaporte vencido de 1997. O bilhete da Varig, aquele papelão cor de marfim com a rosa dos ventos dourada, era objeto de um orgulho que nascia muito antes do embarque. Homens iam de terno. Mulheres de salto alto e vestido.
É, meus amigos, quem embarca de chinelo e discute se vale pagar mais pela mala despachada pode não acreditar, mas sim: voar já foi um luxo.
Os luxuosos voos da Varig
Esse histórico começa em 1955, quando a empresa inaugurou a rota para Nova York com o Lockheed Constellation e precisou competir com a Pan Am pelo mesmo passageiro rico. A solução foi contratar quem entendia de requinte. Vieram o russo Leon Berezanski, o suíço Albert Hilber e o francês Yves Menard para assinar o cardápio. À bordo havia oito camas beliche e o cozinheiro da família real russa, simples assim.
A compra dos primeiros jatos, a partir de 1959, tornou as viagens mais curtas, mas não simplificou o serviço. Já não era preciso lavar os talheres de prata e a louça Noritake filetada a ouro em cada escala, mas eles continuaram a bordo. Quando a ditadura militar liquidou a Panair do Brasil em 1965 numa operação política, a Varig herdou as rotas para a Europa de bandeja e passou a disputar passageiro com Swissair e Air France.
As garrafas de vodca Stolichnaya chegavam em blocos de gelo, com uma luzinha dentro. O conhaque mais pedido era Courvoisier. Na primeira classe, champanhe, caviar e churrasco no espeto.
Nos anos 90, a Varig ocupava o posto de 15ª maior companhia aérea do mundo. Operava para mais de 40 países, tinha escritório nos Champs-Élysées em Paris e no Rockefeller Center em Nova York. O serviço de bordo era reconhecido internacionalmente, especialmente pelo caviar servido na primeira classe, com talheres de prata gravados com o logo da empresa.
Num voo São Paulo-Tóquio, você atravessava o Pacífico comendo pato ao molho, com vinho e sobremesa numa louça de porcelana. O talher era de aço inoxidável pesado, tinha cardápio impresso, aperitivos e vinho.
Isso não era exclusividade da primeira classe. Na classe executiva de um voo Paris-São Paulo, o jantar incluía bife de filé, pato, massa e peixe como opções, cada uma servida com acompanhamentos elaborados. A econômica também tinha cardápio com três pratos à escolha. Sim, três. Na classe econômica.
A frota dos anos 90 refletia essa ambição. A Varig entrou na década com dois dos maiores e mais modernos jatos da época, o MD-11 e o Boeing 747-400, ambos chegando em 1991. A empresa foi uma das primeiras no mundo a operar o MD-11, que se tornou a principal aeronave nos voos internacionais.









O MD-11 era trimotor, futurista para os padrões da época, e a Varig tinha sido uma das fundadoras do programa de desenvolvimento do avião ainda em 1986, antes de ele sequer ter voado. Os comissários falavam vários idiomas e eram treinados com rigor. E, pasmem, a empresa chegou a oferecer cursos de etiqueta a bordo para passageiros de primeira classe.
Tem um detalhe que resume bem o que era essa companhia. Em 1994, quando a seleção brasileira voltou tetracampeã dos Estados Unidos, foi um MD-11 da Varig que trouxe os jogadores para casa. No mesmo ano, quando Ayrton Senna morreu na Itália, foi também um MD-11 da Varig que trouxe o corpo de volta ao Brasil. Presente apenas nos dois momentos mais simbólicos do país naquele ano.
O fim da Varig e a democratização das viagens de avião
Em 1997, a Varig fez o maior pedido da sua história, 24 aeronaves com opção para mais 15, num contrato de 2,7 bilhões de dólares, incluindo Boeing 767-300ER e os novíssimos modelos 737-700, 737-800 e 777-200. No mesmo ano, entrou para a Star Alliance, tornando-se parte de uma rede global com mais de 10 mil voos diários para 124 países. O pico da oferta de assentos se deu também nesse ano. Até ali, parecia que a empresa ia durar para sempre. Ao infinito e além.
Os anos 90, porém, foram marcados pela desregulamentação do setor aéreo brasileiro, o que gerou queda nas tarifas e entrada de novos concorrentes no mercado internacional. A estrutura inchada, a gestão pesada e as dívidas que foram se acumulando ao longo dos anos levaram a companhia para um destino sem volta. Em 2005, a Varig entrou em recuperação judicial. Em 2006, foi vendida para a GOL e encerrou as atividades para sempre.
Nostalgia de um luxo sem sentido
Para nós, que nunca tivemos a chance de embarcar num voo assim (talvez o mais próximo disso tenha sido aquele upgrade ocasional para a executiva), o risco é cair numa nostalgia sem sentido. Saudades daquilo que a gente não viveu, sabe?
Eu, cria da classe média dos anos 1980, cresci acreditando que andar de avião era coisa de rico. Meus pais voaram algumas vezes pela TAM com passagem paga pela empresa para tratar em São Paulo um problema de saúde da minha irmã. Eles traziam de presente uma maletinha servida no voo. Dentro, havia muito mais que amendoim e refrigerante quente.
Mas quando enfim, chegou a minha vez, só ali por volta dos meus 18 anos, o que sobrou pra mim foram as tarifas promocionais da finada WebJet.
Ainda bem. Disso sim eu tenho saudade: pagar R$ 90 pelo trecho. Para além da mordomia que todo mundo gosta, se doer de nostalgia das regalias da Varig é, também, um anseio de exclusividade. Mas quem realmente gostaria de voltar para um tempo em que voar era caro o suficiente para se tornar evento social com peso, pompa e cerimônia? Essa exclusividade era tanto um produto quanto o cardápio e a porcelana.
E o talher de prata era bonito, sim, e quem não prefere isso a uma faquinha mequetrefe de plástico? Precisamos reconhecer, no entanto, que também é um marcador social.
O Brasil tem uma relação antiga com essa performance do luxo. A gente paga mais caro para entrar por uma fila diferente, compra pulseira em festival para não se misturar com o público geral, trata sala vip de aeroporto como conquista pessoal. No minuto em que mais gente tem acesso a um bem ou serviço, a coisa perde valor.
Aeroporto vira rodoviária, né?
Sobre a Autora:
Sou jornalista, escritora e nômade. Viajo o mundo contando histórias e provando cervejas locais desde 2010. Além do 360meridianos, também falo de viagens na minha newsletter Migraciones e no meu canal no Youtube. Vem trocar uma ideia comigo no Instagram. Dá pra saber mais do meu trabalho clicando aqui.
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Os aviões melhoraram, os voos são mais seguros, os preços subiram, a tripulação ganha mal, os assentos não reclinam, a distância entre os bancos é ideal para crianças até 7 anos, a bagagem é paga à parte, os snaks são chamados de "refeição" e o caviar, bem o caviar nunca vi, só ouço falar...
Saudades da Varig, Vasp e Transbrasil, mas hoje muito mais pessoas podem voar.